Volume 10, número 3, dezembro de 2025
ISSN: 2526-124X
Maria Isabel Silva de Morais
O texto a seguir é considerado um ensaio teórico relacionado à temática de Diversidade e Inclusão. Trata-se do memorial de minha tese, intitulada Aos pés da montanha que chora: a história da Educação Especial de uma Escola Estadual de Itajubá, sul de Minas Gerais (1988-2015).
Para iniciar esta trilha, é importante informar que apresento, como epígrafe do memorial, a seguinte frase de Angela Davis: “ Não aceito mais as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que não posso aceitar.”
Ao longo do caminho entre a serra e as margens, você, caro leitor, entenderá do que se trata. Vamos lá?
Aqui, inicio os passos para meu doutoramento, revelando minha condição de pessoa com deficiência (PcD) não aparente.
Os “mascaramentos sociais” imputam seu preço. Nas interações, a maior parte das pessoas diz: “Você não tem cara de autista!”. Contudo, apenas quem compartilha do meu cotidiano e bastidores sabe o quão “custoso” é minha preparação para a rotina, seja de trabalho, estudo ou lazer.
Atualmente, tenho 46 anos e sou de um tempo em que não se falava muito sobre autismo. Com necessidade educacional especial, as altas habilidades sempre foram mais evidentes, o que me tornava ainda mais invisível como PcD.
Não tive adaptações para meu processo de ensino-aprendizagem, uma vez que era considerada de alto desempenho. A vida solitária e o isolamento diziam o contrário, já que era tratada com ansiedade e depressão desde a adolescência.
Permita-me contar um pouco mais das minhas fontes pessoais para que entenda:
Nascida no interior de São Paulo (na região de Ribeirão Preto), fui entregue em adoção por ter mãe biológica em situação de vulnerabilidade (questões de saúde mental). Ao ser visitada por vários casais que, ao conhecerem a história de minha genitora, desistiram, eu enfrentei, aos seis meses de vida, a primeira barreira de preconceito.
Em certo momento, durante uma visita institucional no lar espírita em que morava com minha mãe biológica, conheci minha mãe Terezinha. Desse modo, em menos de dez dias, eu me tornei a filha caçula de um casal mineiro que já tinha três filhos adultos.
Deram-me as melhores possibilidades, desde sempre. Minha irmã mais velha estudava psicologia à época e, ao ver minha desenvoltura com símbolos e jogos de memória e meu vocabulário avançado para a idade, começou a conversa com minha mãe sobre “meu QI mais alto”. Meus irmãos mais velhos assumiram o papel de tutores educacionais, apresentando-me a literatura, a música, o cinema, o teatro e a arte, desde a infância.
Instalou-se um paradoxo: em casa, eu era ótima; na escola, tinha dias de irritação e outros de apatia. O barulho dos colegas e as brincadeiras me deixavam exausta. Nos dias de parquinho, eu ficava ajudando a professora na organização da classe, pois não suportava a textura da areia, o sol quente e os gritos dos colegas. Em dias mais difíceis, eu me mordia, deixando marcas nos braços. Todos esses comportamentos foram deixando minha mãe mais tensa.
Ao iniciar minha jornada no ensino fundamental, precisei mudar de escola e realizar um exame de nivelamento e BINGO! A diretora da nova instituição detectou as altas habilidades, abordando o assunto com minha família.
Foi um bálsamo para mim… deixei de ser tão cobrada por querer fazer as tarefas no meu tempo… o que me dava um certo alento, mesmo com a dificuldade de fazer amigos e de ser considerada “excêntrica”. As crianças queriam brincar na quadra, correr, fazer educação física… eu queria o silêncio da biblioteca e dos laboratórios.
Entendendo que era uma pessoa “diferente”, fui buscando me adaptar e encontrei nos estudos um hiperfoco confortável. Concluí o ensino médio e me graduei em Fisioterapia. Ao me formar, apresentei dificuldades de adaptação para clinicar e escolhi uma área técnica, a Fisioterapia do Trabalho, na qual pudesse trabalhar em home office na maior parte do tempo.
Com acurado senso crítico e técnico, tornei-me perita e assistente técnica e terminei o mestrado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) no mesmo ano, em 2007. Além da perícia, desenvolvi o gosto pela sala de aula, sobretudo para ministrar as disciplinas com turmas menores (Anatomia, Fisiologia e Patologia para cursos técnicos e graduação em saúde).
Em 2012, não conseguia mais interagir com os alunos e as empresas, precisando novamente me adaptar. Diante disso, fui trabalhar em editoras e bancas de concursos públicos, até chegar a ser servidora na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde me dediquei por oito anos à Pró-reitoria de Graduação (PROGRAD).
De 2013 a 2016, voltei ao banco universitário, cursando Serviço Social por me interessar pelas leituras de formação histórica, cultural e social do Brasil. Além desse gosto, sair para estudar me dava a interação e a organização de tempo de que precisava para morar sozinha.
Em 2020, no auge da pandemia, trabalhando em home office, retomei meus estudos para concurso e, em 2022, quando as provas presenciais foram retomadas, fui aprovada no cargo de assistente social em duas universidades federais (em Itajubá e em Viçosa).
A Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) nomeou-me no dia 28 de março de 2022, poucos dias depois de ter iniciado meu primeiro semestre do doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia (PPGED/UFU).
Em ambas as oportunidades, eu concorri no regime de cotas para pessoas com deficiência, algo inédito na vida! Posso dizer que a maior barreira até hoje é a aceitação da minha condição. Em toda a minha trajetória acadêmica e profissional, não quis exercer esse direito por medo de passar por situações constrangedoras e vexatórias. No entanto, apenas as pessoas mais próximas sabiam dos meus prejuízos sociais, emocionais e afetivos.
Eu já tinha perdido muito e era o momento de me reconstruir e desafiar. Conversei com meu orientador e família. Após terem apoiado, vendi mobília, coloquei minha mudança (composta de roupas, livros e poucos utensílios domésticos) no carro, meus dois gatos (Guru e Gita) nas caixas de transporte e dirigi 650 km até Itajubá.
Cheguei no feriado de Tiradentes e iniciei minhas atividades como assistente social no dia 25 de abril de 2022. Por acreditar na educação e reverenciá-la na minha vida, a primeira ação que tive após a posse foi pedir para ser fotografada ao lado de Nise da Silveira e Paulo Freire, feitos em grafite no muro da instituição (Fotografia 1).
Estava feito! Desafio lançado e em curso. Eu trabalharia com estudantes, em maior escala, e faria assessoria para o setor de gestão de pessoas e saúde do servidor.
Fotografia 1 – Dia da posse e início do exercício como assistente social na UNIFEI
Fonte: acervo da autora, 2022.
Muitos podem se perguntar: o muro da UNIFEI tem tantas personalidades… por que decidiu ser registrada ao lado dessas?
Respondo, com ares de orgulho (do vento da Mantiqueira e da minha trajetória até aqui…): Nise, como médica e ser humano, foi capaz de compreender as pessoas na sua vulnerabilidade. No registro, é como se ela me acolhesse de tal modo a encostar em seu ombro… ou como um abraço amigo. E mesmo que Paulo Freire dispense apresentações, debaixo de sua destra, eu sigo a esperançar…
Dias depois desse memorável registro, estava nomeada na portaria para o Núcleo de Educação Inclusiva (NEI), esfera deliberativa, consultiva e interventiva da Educação Especial na perspectiva da Inclusão da UNIFEI. Temos alunos com deficiência e neurodivergentes, em sua maior parte, autistas de suporte um e dois, com quem divido minha experiência de vida, lutas e conquistas.
Considero-me merecedora e vencedora, porém tenho a consciência de que não sou “régua para ninguém”. Fato é que me sinto inteira, viva, identificada, reconhecida e pertencendo.
Nesse processo, além de mim, fui lapidando o objeto de pesquisa do doutorado e me deparei com a necessidade de falar sobre Educação Especial na cidade que me acolheu: Itajubá. Entre os picos e vales da Serra da Mantiqueira, tantas vozes das pessoas com deficiência ecoam. E uma dessas é a minha… esvaindo sonoramente de um lugar diverso e plural. Aos poucos, vou percebendo que o doutoramento é mais do que esperava, ele é um processo de “ser e vir a ser” e do fazer ciência pela perspectiva feminina, desconstruída e ressignificada.
A pesquisa corre pelas minhas linhas como o Sapucaí faz com Itajubá, a fruir (de fruição!) de/em mim, desvinculando a binaridade “ciência versus emoção”. Neste memorial, conto minha travessia… aqui, registro que a pesquisa tem parte de mim e eu, dela.
Entendo que fazer ciência é, também, uma maneira de justiça social. Entendo que minha caminhada até aqui foi repleta de realizações, com bastidores marcados pelo isolamento, pela vulnerabilidade, pela violência simbólica e pelo bullying.
Nessa trilha de vida, na qual fui moldada para ser funcional e resiliente, sinto-me como Angela Davis: estou mudando as coisas que não posso aceitar!
Minha espiral histórica é bem próxima dos alunos e alunas da Escola Estadual Novo Tempo, localizada em Itajubá (meu objeto de pesquisa do doutorado). Que eu saiba honrá-la em minha tese.
Para alguns, essa redescoberta do baú das memórias pode parecer dolorosa ou difícil. Ledo engano. Para mim, foi libertadora! E foi esta a minha intenção: dar voz aos silêncios ecoados aos pés da Mantiqueira e às margens do Rio Sapucaí.
Como disse Marilena Chauí, “o pesquisador empresta à sua pesquisa partes de si mesmo”. Por compreender que a história e a historiografia (a escrita da história) já nos calaram demais… e tantos já falaram por nós, é chegado o momento de promover alteridade, autonomia, independência a partir da educação e da justiça social.
Fato: não há diversidade e inclusão em nenhum espaço ou grupo no qual não se pode ser quem se é.
Ainda há muito o que ser feito. O ser e estar neurodivergente nos espaços sociais, sobretudo no ensino superior, carece desse olhar sensível e da construção de muitas mãos (de uma rede formada pelos servidores técnico-administrativos, professores, colegas e familiares). Que a UNIFEI que queremos (e precisamos) saiba construir essa rede.
Obrigada por ter trilhado este caminho, comigo, até aqui!