Educação e Saúde

Os desafios do ensino em saúde no mundo com inteligência artificial

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 Rafael Corrêa de Almeida

Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ser um conceito restrito aos laboratórios de tecnologia e passou a fazer parte da vida cotidiana. Para tentar dimensionar essa transformação, alguns dos pensadores mais influentes da atualidade recorrem a comparações históricas. Andrew Ng, um dos pioneiros da área, afirma que a IA é “a nova eletricidade”: uma força capaz de transformar todas as indústrias, assim como a energia elétrica fez no século passado. Sundar Pichai, CEO do Google, vai ainda além ao dizer que a inteligência artificial é “mais profunda do que a eletricidade ou o fogo”, enquanto Bill Gates, cofundador da Microsoft, coloca a IA no mesmo patamar de impacto da criação do microprocessador, do computador pessoal e da própria internet. Diante de afirmações tão grandiosas, surge uma questão essencial: será que a inteligência artificial é, de fato, uma aliada no ensino?

Para refletirmos sobre essa pergunta, vale observarmos dois estudos recentes que analisaram o uso da IA no processo de aprendizagem. O primeiro, realizado em escolas públicas da Nigéria, avaliou o impacto impacto de um tutor virtual em atividades de leitura e escrita. Em poucas semanas, os estudantes que utilizaram o recurso apresentaram desempenho significativamente superior ao grupo que não teve acesso à ferramenta — um ganho equivalente a meses, talvez anos, de aprendizagem tradicional. O estudo sugere que, quando bem orientada, a IA pode acelerar o aprendizado de forma surpreendente.

O segundo estudo, conduzido nos Estados Unidos, trouxe uma perspectiva diferente. Universitários que utilizaram um assistente de IA para produzir textos chegaram ao resultado final de maneira mais rápida. Entretanto, quando avaliados posteriormente, lembravam menos do conteúdo produzido e apresentavam menor ativação de áreas cerebrais associadas à atenção, memória e planejamento, em comparação aos colegas que realizaram as mesmas tarefas sem IA. A tecnologia, nesse caso, funcionou como um atalho que reduz o esforço cognitivo, mas também diminui a profundidade do aprendizado.

Esses dois estudos, colocados lado a lado, revelam uma tensão interessante: a IA pode acelerar o caminho até o produto final, mas também pode empobrecer o processo de aprendizagem quando usada de forma passiva ou substitutiva. Uma tecnologia tão poderosa precisa ser usada com intenção e consciência.

Essa ambivalência também aparece na área da saúde. Hoje, sistemas de inteligência artificial auxiliam no diagnóstico de diversas doenças, analisando grandes volumes de dados e imagens médicas com um nível de precisão que, em alguns contextos, se iguala ou até supera o de profissionais humanos. Modelos avançados conseguem identificar padrões sutis em exames de mama, retina ou pulmão, enquanto outras aplicações aceleram etapas da descoberta de novos medicamentos, reduzindo tempo e custos de pesquisa. Equipamentos modernos incorporam algoritmos capazes de padronizar análises e ampliar o acesso ao diagnóstico em regiões remotas.

Entretanto, apesar desses avanços, é importante ressaltarmos que os melhores resultados vêm, em geral, de sistemas altamente especializados, treinados com grandes bancos de dados e validados em ambientes controlados. Quando falamos das ferramentas de IA de uso aberto ao público — aquelas que qualquer pessoa acessa pelo celular ou computador —, o cenário é bem diferente. Esses modelos ainda não têm precisão suficiente para oferecer diagnósticos confiáveis e podem errar interpretações clínicas simples. Por isso, embora a tecnologia seja promissora, ela deve ser utilizada com cuidado e responsabilidade.

Quando voltamos o olhar especificamente para o ensino em saúde, encontramos novamente essa dualidade. Estudos recentes mostram que a IA pode personalizar o estudo, organizar raciocínios, oferecer feedback imediato e até melhorar o desempenho acadêmico em algumas situações, como foi o caso de um estudo realizado este ano com estudantes de Medicina em Pequim, segundo o qual mais de 60% dos alunos relataram impacto positivo do uso de ferramentas de IA no aprendizado.

No entanto, outras pesquisas alertam que o uso excessivo e não supervisionado da IA pode levar o estudante a confiar demais nas respostas prontas, reduzindo o exercício do raciocínio clínico, da tomada de decisão e da prática deliberada — como demonstrado por um estudo, também deste ano, que analisou o uso passivo de IA por estudantes na resolução de problemas clínicos, mostrando prejuízo no desenvolvimento do raciocínio próprio.

Isso nos leva ao ponto central: a formação de um profissional de saúde exige muito mais do que acesso rápido à informação. Exige capacidade de interpretar sinais, elaborar hipóteses, analisar contextos, compreender pessoas. Habilidades que não podem ser terceirizadas. Em especial no Brasil, um país tão grande e desigual, onde ainda há regiões sem internet ou acesso a tecnologias básicas, é fundamental garantir que o futuro profissional seja capaz de atuar mesmo quando nenhum recurso digital estiver à sua disposição.

A inteligência artificial pode, sim, ampliar possibilidades e enriquecer o processo de aprendizagem, mas seu uso deve ser criterioso. Se mal utilizada, pode fragilizar a autonomia do estudante, enfraquecendo justamente aquilo que mais precisamos preservar: o raciocínio clínico e a capacidade de pensar, julgar e decidir. Em última análise, a IA deve ser vista como aquilo que realmente é: uma ferramenta poderosa, capaz de apoiar a formação, mas que não substitui a base humana do cuidado.

Se usada com consciência, a IA pode potencializar o aprendizado e preparar profissionais ainda mais competentes. Se usada sem reflexão, pode criar dependências e lacunas difíceis de corrigir, pois, independentemente dos avanços tecnológicos, o cuidado em saúde continua nascendo do encontro entre duas pessoas — e esse encontro exige muito mais do que respostas rápidas. Exige preparo, atenção, discernimento e humanidade.