Volume 10, número 3, dezembro de 2025
ISSN: 2526-124X
João Gabriel Costa de Faria
A universidade é, para muitos, um ambiente de descoberta, crescimento e desafios. Para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), no entanto, esses desafios podem ser ainda maiores. A rotina acadêmica, a necessidade de organização pessoal e o gerenciamento do tempo são aspectos que, quando não bem acompanhados, podem comprometer significativamente o desempenho e o bem-estar desses alunos. Pensando nisso, o Núcleo de Educação Inclusiva (NEI) da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) tem promovido, com resultados bastante positivos, um programa de monitorias semanais presenciais e virtuais voltadas à organização dos estudos e ao planejamento de tarefas diárias.
Como monitor do NEI e aluno de engenharia, tive a oportunidade de participar de perto desse processo e observar como esse tipo de apoio personalizado pode fazer diferença no dia a dia acadêmico de estudantes com TEA e TDAH. A proposta das monitorias vai além do conteúdo curricular tradicional: o foco está em desenvolver, com o aluno, uma rotina funcional que respeite seu ritmo, suas dificuldades e suas potencialidades. Isso é feito por meio da construção conjunta de cronogramas de estudos, da divisão de tarefas diárias, do acompanhamento contínuo das demandas acadêmicas e de conversas sobre estratégias para lidar com a sobrecarga e a desatenção.
O diferencial do projeto está em sua abordagem humana, acolhedora e estruturada. Os monitores — alunos de diferentes cursos da UNIFEI — são preparados previamente por meio de orientações da coordenadora do NEI, Ana Carolina Sales Oliveira, e da psicopedagoga Mari Prado. Esse preparo inclui formações sobre as características dos transtornos, práticas inclusivas, comunicação assertiva e o respeito à individualidade de cada estudante. Com isso, a monitoria transforma-se em um espaço seguro e produtivo, no qual o aluno se sente compreendido, escutado e incentivado a desenvolver sua autonomia.
As reuniões acontecem semanalmente e adaptam-se à disponibilidade e à necessidade de cada aluno, podendo ser presenciais ou virtuais. Em ambos os formatos, busca-se manter a constância e a previsibilidade — fatores que são especialmente importantes para pessoas com TEA, por exemplo. Já para os alunos com TDAH, que muitas vezes têm dificuldade em manter o foco e concluir atividades, a presença constante de um monitor ajuda a reforçar metas, lembrar prazos e reorganizar prioridades quando necessário.
Durante as sessões, são utilizadas ferramentas simples, como quadros de horários, listas de tarefas, temporizadores e plataformas de organização, sempre respeitando a forma como cada aluno lida melhor com a informação. Um aspecto muito relevante que observo é que, com o tempo, muitos estudantes começam a internalizar essas ferramentas, passando a organizar sua rotina de forma mais independente — o que mostra o impacto real da monitoria na construção de habilidades executivas.
Além disso, o vínculo criado entre monitor e aluno contribui para o desenvolvimento de uma relação de confiança. Em muitos casos, esse vínculo também favorece o desenvolvimento de habilidades sociais, principalmente para estudantes com TEA, que podem apresentar dificuldades nesse aspecto. As conversas durante as monitorias, as trocas de experiências e os pequenos avanços celebrados juntos reforçam a importância de uma escuta atenta e empática.
A atuação dos monitores, aliada ao acompanhamento da equipe do NEI, tem mostrado que é possível promover inclusão real dentro do ambiente universitário. Não se trata apenas de oferecer suporte pontual, mas de construir, em conjunto, caminhos para que cada estudante possa se desenvolver de forma plena e equitativa. Para mim, enquanto aluno de engenharia e monitor, participar desse projeto tem sido uma experiência transformadora. Não só pelo impacto que vejo nos colegas que acompanho, mas também pelo crescimento pessoal e humano que esse tipo de atividade proporciona.
O sucesso da iniciativa também passa por um olhar institucional comprometido com a permanência e o sucesso acadêmico de todos. A UNIFEI, por meio do NEI, tem desempenhado um papel essencial nesse sentido, investindo em formação, sensibilização e estratégias práticas para tornar o ambiente universitário mais acessível. Projetos como esse reforçam que inclusão não é apenas um conceito, mas uma prática diária, construída pela sociedade.
Em resumo, a monitoria semanal voltada à organização dos estudos e ao planejamento diário tem se mostrado uma importante ferramenta de inclusão. Respeitando-se os tempos e as particularidades de cada estudante, cria-se um espaço em que é possível aprender, crescer e, principalmente, ser. Para alunos com TEA e TDAH, isso representa mais do que apoio acadêmico: é a oportunidade de se reconhecerem como parte ativa e capaz dentro da universidade.